Quarta-feira
Ele não gostava de espelhos.
Não por vaidade. Nem por aparência.
Mas porque havia algo desconfortável em se ver por tempo demais.
Era mais fácil viver no automático. Resolver tarefas, cumprir rotinas, manter-se ocupado o suficiente para não precisar se observar com profundidade.
Mas, inevitavelmente, havia momentos.
Reflexos em vitrines. No vidro do carro. Na tela escura do celular.
E, em alguns desses instantes, algo diferente acontecia.
Não era o rosto que incomodava.
Era a sensação de não saber exatamente quem estava olhando de volta.
Durante muito tempo, ele evitou essa pergunta.
Mas evitar não resolve — apenas adia.
Até que um dia decidiu sustentar o olhar.
Não por coragem repentina. Mas por cansaço de não saber.
E foi desconfortável.
Percebeu incoerências. Distâncias entre o que pensava e o que fazia. Entre o que queria e o que sustentava.
Mas também percebeu algo importante:
O incômodo não era um problema.
Era um sinal de consciência.
E consciência, por mais desconfortável que seja, é sempre o início de qualquer mudança real.