Terça-feira
Ela tinha o hábito de revisitar quem já foi.
Guardava roupas que não usava mais, mantinha fotos de fases que não representavam mais quem era, revisitava conversas antigas como quem tenta manter viva uma versão que já passou.
Dizia que era memória. E era.
Mas também era apego.
Porque, no fundo, havia medo de deixar ir certas versões de si mesma. Medo de que, ao abandonar aquelas identidades, não soubesse exatamente quem se tornaria.
Então permanecia entre tempos.
Nem totalmente no passado, nem completamente no presente.
Até que, em um dia comum, percebeu algo ao se ver refletida em um vidro:
Ela já havia mudado.
Não de forma brusca. Não com um evento específico.
Mas nas escolhas pequenas. Nas reações diferentes. Nas coisas que já não aceitava. Nas coisas que agora valorizava.
E ali veio um incômodo necessário:
Continuar se prendendo ao que já foi era uma forma de não assumir quem estava se tornando.
Deixar ir não significava negar o passado.
Significava permitir que ele cumprisse o seu papel.