Terça-feira
Havia um relógio antigo enterrado no quintal de uma casa muito antiga.
Ninguém lembrava exatamente quando ele havia sido colocado ali. Diziam apenas que pertencia a alguém que tinha medo do tempo.
Durante anos, o relógio permaneceu sob a terra, suas engrenagens paradas, seu ponteiro imóvel apontando para uma hora que já não existia.
Até que, durante uma reforma no terreno, alguém o encontrou.
Ao limpá-lo, perceberam algo curioso: o relógio ainda funcionava. Bastava dar corda.
Mas ninguém sabia se deveria.
Alguns diziam que era melhor deixá-lo como estava. Outros achavam que era um desperdício manter algo funcional parado.
Finalmente, decidiram girar a pequena chave metálica.
O relógio começou a andar.
Não para recuperar o tempo perdido. Não para corrigir os anos em silêncio. Apenas para marcar o tempo que ainda existia.
Foi quando perceberam algo importante.
O tempo não se vinga de quem o ignora. Ele apenas continua.
E sempre que você decide voltar a viver com presença, ele recomeça com você — não de onde você parou, mas de onde você está.