O Homem que Colecionava Silêncios

Segunda-feira

Ele não colecionava objetos, nem fotografias, nem cartas antigas. Colecionava silêncios.

Havia o silêncio da mesa onde duas pessoas já não sabiam o que dizer. O silêncio do quarto depois de uma discussão interrompida. O silêncio pesado que surge quando alguém vai embora sem bater a porta. Ele reconhecia cada um deles como quem identifica espécies raras.

Com o tempo, sua casa ficou cheia. Não de móveis, mas de ausências não resolvidas. Cada silêncio guardado tornava o ar mais denso. Caminhar pelos corredores exigia esforço, como se atravessasse água parada.

Certo dia, ao abrir uma janela, percebeu que os silêncios não estavam ali para serem acumulados, mas atravessados. Alguns pediam palavras. Outros pediam despedida. Outros, apenas aceitação.

Ele começou a desfazer a coleção. Não falando tudo de uma vez, mas escolhendo qual silêncio merecia voz e qual precisava apenas ser liberado.

No fim, descobriu algo simples: o silêncio pode proteger por um tempo, mas quando guardado demais, se transforma em distância. E distância, quando não reconhecida, vira destino.