O Homem que Carregava Pedras nos Bolsos

Segunda-feira

Durante anos, ele desenvolveu um hábito estranho: colocava pequenas pedras nos bolsos sempre que algo o machucava.
Uma palavra dura virava uma pedra. Uma decepção virava outra. Uma traição, uma perda, uma culpa antiga — tudo ganhava peso físico.
No começo eram poucas. Quase não se percebia. Ele continuava caminhando normalmente.
Mas o tempo passou, e os bolsos começaram a pesar. Seus passos ficaram mais lentos. Subir pequenas inclinações exigia esforço. Ainda assim, ele não retirava nenhuma.
Dizia a si mesmo que precisava lembrar. Que não podia esquecer o que haviam feito com ele. Que aquelas pedras eram provas do que havia suportado.
Um dia, ao tentar atravessar um riacho raso, caiu. O peso o puxou para baixo. Não era a água que o impedia de levantar — era o que ele insistia em carregar.
Sentado na margem, molhado e cansado, fez algo que nunca havia considerado: tirou uma pedra do bolso.
Nada aconteceu.
O mundo não mudou. A memória não desapareceu. A história não foi apagada.
Então tirou outra.
E outra.
A cada pedra retirada, percebeu algo inesperado: lembrar não exigia carregar o peso. A memória continuava ali, mas o fardo era opcional.
Quando finalmente levantou, ainda havia cicatrizes. Mas havia também leveza.
Perdoar, às vezes, não é sobre absolver alguém.
É sobre decidir que você não precisa mais andar curvado por causa do que passou.