A Mulher que Tinha Medo de Ser Feliz Demais

Terça-feira
Sempre que algo começava a dar certo, ela ficava inquieta.
Não parecia ansiedade comum. Era algo mais discreto.
Uma necessidade de preparar-se para a perda antes mesmo de viver a alegria.
Se uma fase boa começava, ela procurava sinais de que terminaria logo. Se alguém a tratava com carinho, parte dela já ensaiava a despedida.
Durante muito tempo, chamou isso de realismo.
Dizia que era melhor não criar expectativas altas. Melhor não se entregar demais. Melhor manter um pé atrás.
Mas um dia percebeu algo doloroso:
Estava tentando sofrer antes para sofrer menos depois.
Só que, nesse processo, também deixava de viver plenamente o que era bom enquanto existia.
A felicidade, para ela, tinha se tornado algo que precisava ser moderado, controlado, quase desculpado.
Até que ouviu uma frase simples, dita sem intenção de ensinar nada:
“Nem tudo que é bonito precisa vir acompanhado de medo.”
Aquilo ficou.
Porque talvez a coragem não esteja apenas em suportar a dor quando ela vier.
Talvez esteja também em permitir-se sentir alegria sem precisar interrompê-la com antecipações de desastre.