A Mulher que Sempre Dizia “Depois”

Terça-feira

Ela não dizia “não”.

Dizia “depois”.

Depois eu descanso.

Depois eu me cuido.

Depois eu resolvo isso.

Depois eu falo sobre isso.

O “depois” parecia uma promessa responsável. Não era negação. Era apenas adiamento.

E assim, os dias foram passando.

O cansaço acumulava, mas era sempre administrável. As emoções apertavam, mas nunca a ponto de parar tudo. As conversas difíceis eram sempre deslocadas para um momento mais conveniente.

Até que um dia, o corpo não perguntou.

Parou.

Não de forma dramática. Mas definitiva o suficiente para interromper o ritmo que ela sustentava.

Foi nesse intervalo forçado que percebeu algo desconfortável:

O “depois” nunca foi um tempo real.

Foi um lugar onde ela colocava tudo o que não queria encarar no presente.

E o problema de empurrar a vida para depois é que, em algum momento, o depois chega sem pedir permissão — e tudo aquilo que foi adiado vem junto.

Algumas coisas não precisam de mais tempo.

Precisam de presença.