A Mulher que Conversava com a Própria Sombra

Terça-feira

Desde muito cedo, ela evitava lugares escuros. Não por medo da noite, mas porque ali a sombra crescia. Quanto mais forte a luz, menor a sombra — e isso a tranquilizava.
Com os anos, aprendeu a manter tudo intensamente iluminado: agenda cheia, ruído constante, conversas superficiais, distrações contínuas. Qualquer coisa que impedisse o silêncio. Qualquer coisa que evitasse o encontro consigo mesma.
Até que, em uma noite comum, a energia acabou. A casa mergulhou no escuro. Não havia telas, não havia sons, não havia fuga. A sombra voltou a se projetar nas paredes, maior do que nunca.
Pela primeira vez, ela não correu. Sentou-se e observou. O tempo passou. A sombra não se movia, não falava, não atacava. Apenas existia, do tamanho da luz que ela mesma costumava acender.
Ali, compreendeu algo simples e profundo: a sombra não era inimiga. Negá-la a fazia crescer; reconhecê-la a tornava suportável.
Desde então, ela não tenta mais eliminar a sombra. Aprende, dia após dia, a caminhar inteira — com luz, profundidade e presença.