Segunda-feira
Durante muitos anos, ela carregou uma pequena chave no fundo da bolsa.
Não tinha certeza de onde a havia conseguido. Não lembrava exatamente quando começou a guardá-la. Mas havia algo nela que impedia o descarte.
Mudou de casa, de rotina, de fase da vida. A chave continuava ali.
Às vezes a encontrava entre papéis antigos e pensava em jogá-la fora. Mas não fazia.
Havia uma sensação estranha de que aquela chave ainda pertencia a alguma coisa importante.
O tempo passou.
Um dia, ao reorganizar um cômodo esquecido da própria casa, encontrou uma porta antiga, escondida atrás de móveis acumulados. Nunca havia prestado atenção nela.
Por curiosidade, tentou a chave.
Funcionou.
Do outro lado não havia riqueza, segredo ou revelação grandiosa.
Havia um espaço abandonado. Livros que ela havia parado de ler. Instrumentos que deixou de tocar. Planos que interrompeu porque a vida ficou “ocupada demais”.
Ela ficou muito tempo parada ali dentro.
Porque percebeu que não havia encontrado um cômodo perdido.
Havia encontrado partes de si que foram sendo adiadas até se tornarem invisíveis.
Nem toda chave abre algo novo.
Algumas servem apenas para devolver acesso ao que você deixou de visitar dentro de si.