Segunda-feira
Havia uma estrada antiga que cruzava campos silenciosos e colinas suaves. Quem a percorria logo percebia algo estranho: depois que alguém avançava alguns passos, o trecho que ficava para trás desaparecia lentamente, como se nunca tivesse existido.
Muitos viajantes se assustavam ao perceber isso. Paravam no meio do caminho, tentando voltar para verificar se o que haviam vivido ainda estava lá. Mas quando olhavam para trás, viam apenas terra lisa, como se nenhuma pegada tivesse sido deixada.
Alguns desistiam de seguir. Diziam que uma estrada assim era injusta. Queriam a segurança de poder voltar, revisar cada passo, corrigir decisões antigas.
Mas havia aqueles que continuavam.
Esses caminhantes, com o tempo, aprendiam algo essencial: o desaparecimento da estrada não era punição, era libertação. Não havia como carregar arrependimentos eternos se o caminho já não existia. Não havia como viver revendo cada erro, cada escolha, cada momento perdido.
Tudo o que restava era o trecho à frente.
Com os dias, esses viajantes começaram a caminhar com mais presença. Observavam melhor o que encontravam, ouviam mais atentamente as conversas, descansavam quando o corpo pedia. Sabiam que cada passo vivido seria o único daquele tipo.
A estrada não permitia voltar, mas oferecia algo em troca: a chance de viver cada parte da jornada como se fosse a única.
E, talvez, fosse mesmo.