Terça-feira
Ela desenhava em qualquer lugar.
No chão, nas paredes, nos cadernos. Criava mundos inteiros com cores que não precisavam fazer sentido. Casas flutuavam. Árvores eram azuis. Pessoas tinham formas inventadas.
Desenhar não era uma atividade. Era uma extensão de quem ela era.
Até que um dia, alguém corrigiu.
"Árvore não é dessa cor."
"Isso não parece uma casa."
"Você precisa fazer direito."
Não foi uma crítica dura. Foi apenas uma frase comum, dita sem intenção de ferir.
Mas algo mudou.
No dia seguinte, ela desenhou menos. No outro, hesitou antes de começar. Depois de um tempo, parou.
Os papéis ficaram em branco.
Anos se passaram.
Já adulta, encontrou uma caixa antiga com seus desenhos. Sentou-se no chão e começou a folhear. Cada página carregava algo que ela havia deixado para trás sem perceber.
Não era apenas criatividade.
Era liberdade.
Naquele momento, segurando um lápis depois de tanto tempo, percebeu que o mais difícil não era desenhar novamente.
Era permitir-se errar sem medo de ser corrigida.
E talvez seja assim com muitas partes de nós.
Elas não desaparecem.
Apenas ficam esperando o momento em que nos sentimos seguros o suficiente para voltar.