Quarta-feira
Na parede de uma casa antiga havia um relógio que sempre atrasava alguns minutos.
Quem visitava a casa comentava. Quem morava ali já havia tentado consertá-lo incontáveis vezes.
Mas, por alguma razão, ele insistia em desacelerar o tempo.
Durante anos, aquilo foi visto como defeito.
Até que alguém começou a notar um padrão curioso.
Naquela casa, as refeições demoravam mais. As conversas se prolongavam. As despedidas não eram apressadas.
Havia algo diferente no ritmo daquele lugar.
Não porque o mundo externo fosse mais lento.
Mas porque ali, sem perceber, as pessoas tinham aprendido a habitar melhor os minutos.
Um dia, alguém sugeriu trocar o relógio por um novo, preciso, moderno, impecável.
Mas a ideia nunca foi adiante.
Porque, no fundo, já haviam entendido algo importante:
Nem todo atraso é perda.
Existem ritmos que parecem lentos apenas porque estamos acostumados demais com urgências que não nos pertencem.