Sexta-feira
Ele tinha um hábito silencioso de adiar a própria vida.
A roupa boa era para uma ocasião especial. O descanso verdadeiro ficava para depois da próxima meta. O hobby amado esperava uma fase mais tranquila.
Sempre havia uma condição futura para começar a viver melhor.
Quando isso acontecer…
Quando eu terminar aquilo…
Quando a vida desacelerar…
Só que a vida não desacelerava.
Ela apenas mudava de urgência.
Um dia, ao abrir uma gaveta, encontrou algo guardado havia anos para “um momento importante”.
Ficou olhando aquilo por muito tempo.
Porque percebeu algo simples e brutal:
Os dias comuns haviam ocupado quase toda a sua existência.
E ele estava tratando justamente esses dias — a maior parte da vida — como sala de espera.
Naquele mesmo fim de tarde, usou o que estava guardando. Não por rebeldia. Apenas por compreensão.
Porque talvez o grande engano não seja acreditar que a felicidade virá.
Talvez seja imaginar que ela sempre chegará vestida de ocasião especial.