Quarta-feira
No fundo de uma casa havia um quarto que nunca era arrumado.
A porta permanecia fechada. Não por vergonha, mas por adiamento. Sempre havia algo mais urgente para resolver antes de lidar com aquele espaço.
Dentro do quarto estavam coisas de diferentes épocas: projetos interrompidos, versões antigas de quem ali viveu, planos que já não faziam sentido, medos que já deveriam ter sido revisitados.
O curioso é que, quanto mais tempo o quarto ficava fechado, maior ele parecia se tornar na imaginação.
Parecia impossível organizá-lo.
Um dia, sem grande decisão ou coragem extraordinária, a porta foi aberta.
A poeira era real. A desordem também. Mas não era infinita.
A organização começou devagar. Uma caixa de cada vez. Algumas coisas foram guardadas. Outras descartadas. Outras apenas reconhecidas como parte da história.
Depois de algum tempo, o quarto deixou de ser um peso invisível.
Virou apenas um cômodo da casa.
É assim com muitas partes internas que evitamos. O que não é enfrentado cresce na imaginação. O que é visto de frente quase sempre se revela humano, finito e possível de reorganizar.